terça-feira, 25 de março de 2008

"Branco no samba não tá com nada"


Sambablim, sambatoff, sambadinho e agora sambaflex. Se for reparar bem, as sílabas somadas à palavra samba, se não têm qualquer valor semântico, ao contrário da mais genérica sambalanço, certamente acrescentam uma original sonoridade rítmica a um gênero de música que tem no ritmo sua razão de ser. Seu criador, o carioca de Santa Catarina Orlandivo Honório de Souza, é ele próprio puro ritmo. Em 1961, ele encantou os meios dançantes do Rio de Janeiro ritmando seus sambas com um molho de chaves. Mais do que uma marca registrada, as chaves de Orlandivo vinham reafirmar as possibilidades infinitas da percussão do samba. Uns batucavam em caixa de fósforos, outros em lata de graxa, outros mais em garrafa, estes em chapéu de palha, aqueles em tampo de mesa, sem falar nos institucionais tamborins, caixas, taróis, bumbos, pratos e surdos. A Orlandivo, porém, bastavam as chaves.
De Santa Catarina ele é por ter nascido em Itajaí, em 8 de agosto de 1937. E carioca continua sendo por ter crescido respirando o ar da Praça Onze, do Campo de Santana, da Praça Mauá. Tudo isso antes de descobrir a Zona Sul pelas mãos do amigo e primeiro parceiro musical Paulo Silvino.

A Zona Sul veio depois, quando, já compondo seus sambas, todos assumidamente dançantes, começou a freqüentar as portas do Drink e do Arpége, boates onde se dançava (nas outras, lembra ele, “tocava-se música para ouvir”). Orlandivo sentia-se seduzido pelo sambalanço de Djalma Ferreira, no Drink, e Valdir Calmon, no Arpége. Os dois foram, com Mário Reis, Jackson do Pandeiro, Joel de Almeida e Dilermando Pinheiro, as suas principais influências como compositor e intérprete. Como o compositor não tocava violão nem qualquer outro instrumento harmônico (sua experiência musical se limitava à gaita dos tempos de criança), Orlandivo teve de se valer só do ritmo para mostrar suas composições a quem interessar pudessem.

“Tinha cara que mostrava suas músicas batucando até no corpo do outro”, lembra Orlandivo. “Não me amarrava naquilo. Bolei então o lance do chaveiro. E com o chaveiro mostrei “Vem pro samba” pro Miltinho, crooner do Djalma no Drink e já fazendo grande sucesso. Miltinho gostou, mas em vez de lançá-lo, me fez cantá-lo na boate. Naturalmente, com as chaves. Ele, como todo mundo, estava impressionado com meu instrumento”, conta.

O depois, como se diz, é história – A aprovação junto à velha guarda do sambalanço, a parceria com Roberto Jorge, o primeiro compacto, o sucesso, os LPs, os bailes com Ed Lincoln, Wilson das Neves, Márcio Montarroyos, Emílio Santiago e Toni Tornado, na base de 18 por mês. E mais as aparições na TV e o papel de astro principal do programa “Alô Brotos”, aos sábados na Tupi. Tudo somado, foram 22 anos de bailes, agora em nova fase na casa Rio Scenarium, resultado em grande parte da admiração de Henrique Cazes por ele. “Foi do Henrique a produção dos shows, em 2004, no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), onde tive ao meu lado Doris Monteiro, Miltinho, Claudette Soares e Ed Lincoln”, lembra Orlandivo. “Dali veio a idéia de show no Rival, das apresentações no Rio Scenarium e do próprio CD, este, é claro, com produção e arranjos dele”, conta.

Uma volta em grande estilo? Orlandivo esclarece que não é bem uma volta, já que na verdade ele nunca saiu de cena. “Talvez meu maior defeito seja a cor da pele”, diz ele com humor mais carioca que catarinense. “Branco no samba não tá com nada”.

Por João Máximo
Fonte: Deck Disc

Ótimas trançadas...

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